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Vtimas apontam mulher como autora da lista de 'mais putas' em Minas

Estado de Minas

12/01/2018 20h32

Mulheres que tiveram os nomes divulgados em uma lista que rotula as mais putas de Muzambinho, no Sul de Minas Gerais, apontaram ao delegado Slvio Srgio Domingues, responsvel pela investigao, uma moradora da cidade como responsvel pela criao da lista.

O delegado tambm informou ao em.com.br que, desde a tarde dessa quinta-feira, tem recebido mensagens com novas listas. Entre elas, a dos homens mais briges e dos mais caloteiros de Muzambinho.

A suspeita que surge das prprias vtimas de pessoa do sexo feminino como autora da lista. Ento, como algo apenas que veio das vtimas, precisamos tratar como informal. Mas no est descartada a participao de outras pessoas, porque essa lista circulou por mensagens e as pessoas foram escrevendo mais nomes, explicou o delegado Slvio Srgio Domingues.

Depois que as listas viralizaram na internet nessa quinta-feira, mais vtimas que tiveram os nomes envolvidos procuraram a delegacia da Polcia Civil em Monte Belo, onde transcorre a investigao, para registrar representaes autorizando o prosseguimento das apuraes.

O delegado Slvio Domingues informou que as investigaes ainda esto sob sigilo e algumas coisas j esto sendo esclarecidas.

O delegado comentou sobre uma possvel quebra do sigilo telefnico e rastreamento por IP de suspeitos de elaborarem a lista. Se houver essa necessidade (quebra de sigilo e rastreamento de computadores), isso demanda autorizao judicial. Se constatarmos que tem elementos suficientes, vamos ter que pedir a quebra de sigilo telefnico. Esses delitos das listas que so de baixo potencial ofensivo, no esto previstos para a violao da intimidade. Isso s permitido em crimes graves e quando se chega a condio de que no h outra forma de apurar sem a quebra do sigilo, detalhou o delegado.

Mesmo com a grande repercusso que histria ganhou nas ltimas 24 horas, novas listas surgiram em Muzambinho e Monte Belo. Segundo o delegado, s nesta manh outras listas de mais caloteiros e mais briges chegaram at ele. Entretanto, apenas o grupo de mulheres citadas na listagem das "mais putas" fizeram representao na corporao.

Preconceito e constrangimento

"Minha primeira reao foi imaginar: O que minha patroa vai pensar? E minha famlia?. Posso perder meu emprego por causa disso. Fiquei extremamente constrangida. Esse foi o relato de uma das vtimas da lista rotulando mulheres como as mais putas em Muzambinho, no Sul de Minas Gerais.

A listagem comeou a circular pelo WhatsApp h uma semana e tem mais de 100 nomes de mulheres, entre elas adolescentes. A jovem moradora da cidade de 20.430 habitantes G.A.S.T., de 17 anos, se diz arrasada e com vergonha de fazer parte do ranking. Outras listas como os mais gays e os mais chatos tambm correm nas redes sociais das cidades vizinhas o que expe o preconceito contra as prprias mulheres, s profissionais do sexo e aos homossexuais. Especialistas lembram que tanto quem cria quanto quem compartilha esse tipo de lista pode responder ao ato judicialmente.

Primeiro comeou a circular a lista do mais chato da cidade. Todos levaram na brincadeira. Mas na ltima tera-feira um menino com quem eu tenho um caso me enviou uma mensagem contando sobre a lista das mais putas. Eu estava em primeiro lugar e ele me perguntou: O que voc est fazendo?, lembrou G.A.S.T. Depois disso, a vida dela e de outras mulheres mudou com exposio nas redes sociais.

Em um municpio to pacato, olhares preconceituosos tomaram conta da rotina das jovens: No deixei de ir trabalhar, mas minha rotina mudou. uma sensao pssima. Trabalho em uma loja conhecida e agora minha imagem est no cho, disse J.S.T., de 18, que tambm teve o nome listado. Ambas contam que algumas amigas ficaram reclusas em casa, por vergonha de sair s ruas. Algumas esto inconsolveis. S choram. Outras tiveram namoros prejudicados por causa da lista. Para piorar, existe um boato de que lanaram a lista dos mais chifrudos, disse G.A.S.T que acredita que o novo ranking deixar o clima na cidade ainda mais tenso.

Na contramo do preconceito, vrias meninas compartilharam e curtiram um texto, nas redes sociais, de apoio s vtimas. Quando li aquela lista pensei: quem no puta? Toda mulher considerada puta na boca de algum pelo simples fato de ser mulher ou de no ser o modelo de mulher imposta pela cultura, escreveu uma internauta.

Para Dalcira Ferro, psicloga, conselheira-presidente do Conselho Regional de Psicologia Minas Gerais e militante LGBT, a circulao desse tipo de lista nas redes mostra lgicas machistas e LGBTfbicas rotineiras. O conceito e a ideia da diversidade sexual ainda causa muitos desconfortos, principalmente, quando estamos falando de mulheres, que tm sua liberdade ao corpo e seu direito sexualidade negados historicamente, pontuou a especialista. Ela acrescenta que importante que as vtimas recebam suporte e apoio no s profissional, mas de amigos e familiares para que no tenham autoestimas abaladas, quadros de isolamento, de fobia social, depressivos ou at mesmo quadros psquicos mais graves.

O delegado da Polcia Civil para Crimes Cibernticos em BH, Felipe Nogueira, acredita que o total de ocorrncias revela o quanto o brasileiro gosta de ofender pela internet e que age dessa forma a partir de duas falsas crenas: a de que a tecnologia proporciona o anonimato e de que no h lei capaz de punir os infratores. Alm de a pessoa achar que quando posta em rede social no vai ser descoberta, tambm confunde liberdade de expresso com a possibilidade de ofender o outro, disse. A partir do momento que uma pessoa expe algo sobre a vida de outra pessoa, pode ser responsabilizada. Voc est manchando a imagem de terceiros e a boa honra., concluiu.

J o presidente da Comisso de Eletrnicos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MG), Lus Felipe Slvia Freire, pontua que o simples fato de compartilhar ou divulgar contedo j caracteriza o crime. A rede social pode acalar um nmero grande de pessoas muito rapidamente. Quanto maior for a repercusso, maior a pena ao(s) autor(es) e a indenizao, disse o especialista.


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